Saúde Suplementar16/07/2026

A ANS abriu o valor médio de honorários de mais de 4.000 procedimentos. O que fazer com esse número na próxima renegociação de tabela.

Durante décadas o consultório negociou tabela sem saber quanto o convênio paga aos outros, e agora essa referência é pública, oficial, gratuita e filtrável por estado.

Por Jéssica Anjos · Fundadora

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Notebook sobre mesa de consultório exibindo painel de dados com gráficos e filtros, ao lado de planilha impressa com códigos de procedimento marcados a caneta.

Em resumo

  • Em 3 de julho de 2026, a ANS disponibilizou ao público a base de dados do painel dinâmico D-TISS, que mostra quantidade e valor médio de honorários praticados em consultas, exames, cirurgias e terapias.
  • São seis filtros: segmentação (ambulatorial ou hospitalar), unidade da federação, faixa etária, sexo, porte da operadora e período de competência. Os dados mais recentes são de 2025.
  • A busca aceita código ou nome do procedimento, e a série cobre mais de 4.000 procedimentos entre janeiro de 2015 e dezembro de 2025.
  • O painel é referência estatística, não é tabela oficial de preço. A ANS padroniza o código do procedimento pela TUSS, não o valor, e a negociação segue livre entre as partes.
  • Em paralelo, a Consulta Pública 170/2026 discutiu regras de glosa e reajuste entre operadoras e prestadores. É minuta em avaliação, não é norma vigente.

Em números

  • 03/07/2026 · data em que a base do D-TISS foi disponibilizada ao público
  • 4.000+ · procedimentos consultáveis, por código ou por nome
  • 6 filtros · segmentação, UF, faixa etária, sexo, porte da operadora e competência
  • 2015 a 2025 · série histórica disponível, onze anos de comparação
  • 2 bilhões · procedimentos realizados na saúde suplementar em 2025, alta de 3,7%
  • 73,84 dias · prazo médio de recebimento dos hospitais no 1º trimestre de 2026

O que a ANS colocou no ar em 3 de julho

Em 3 de julho de 2026, a Agência Nacional de Saúde Suplementar disponibilizou ao público a base de dados do painel dinâmico D-TISS. A ferramenta permite consultar a quantidade e o valor médio de honorários praticados em procedimentos realizados por beneficiários de planos de saúde: consultas, exames, cirurgias e terapias. Os dados mais recentes são referentes a 2025.

O painel oferece seis opções de refinamento: tipo de segmentação (ambulatorial ou hospitalar), unidade da federação, faixa etária, sexo, porte da operadora e período de competência. A busca aceita tanto o código quanto o nome do procedimento. São mais de 4.000 procedimentos disponíveis para consulta, em uma série que vai de janeiro de 2015 a dezembro de 2025.

Traduzindo para a mesa do consultório: é possível abrir o navegador e ver quanto, em média, se pagou de honorário por um procedimento específico no seu estado em 2025, sem pedir favor a ninguém e sem pagar nada. A informação está no site da ANS, na seção Dados e Indicadores do Setor, e a base bruta também foi publicada no Portal Brasileiro de Dados Abertos do Governo Federal.

Não se trata de uma tabela oficial de preços. É um retrato estatístico do que o setor efetivamente praticou, construído a partir do que as próprias operadoras informaram à agência. A distância entre as duas coisas separa a leitura útil da leitura equivocada.

O dado já existia, e ele saiu do seu próprio faturamento

O D-TISS não é uma pesquisa nova. É a consolidação de algo que já circula há mais de uma década. Desde setembro de 2014, as operadoras de planos de saúde são obrigadas a enviar à ANS os dados referentes aos atendimentos prestados aos seus beneficiários. Esse envio acontece pelo padrão TISS, a Troca de Informações na Saúde Suplementar.

O TISS é o padrão obrigatório para a troca eletrônica de dados de atenção à saúde entre os agentes do setor privado. Segundo a própria ANS, ele existe para padronizar procedimentos administrativos, subsidiar avaliações econômico-financeiras e assistenciais das operadoras, compor o Registro Eletrônico de Saúde e reduzir assimetrias de informação. Guarde essa última finalidade, porque é exatamente o que se materializou em 3 de julho.

Dentro do TISS existe a TUSS, a Terminologia Unificada da Saúde Suplementar. É o componente que dá código e descrição a cada procedimento, para que uma consulta em Manaus e uma consulta em Porto Alegre cheguem à operadora com o mesmo nome técnico. A TUSS padroniza a linguagem. Ela não estabelece preço. A ANS já esclareceu publicamente que a terminologia fornece códigos e descrições, e que a negociação de valores permanece livre entre as partes, por ser matéria contratual.

Aqui está o ponto que quase ninguém junta. Cada guia que o consultório envia à operadora, com código TUSS e valor, alimenta essa base. O médico sempre foi a origem do dado. Ele nunca tinha sido o destinatário dele.

Do menu do gov.br até o número do seu procedimento, no seu estado

A parte prática começa antes de abrir o painel. Separe, do seu próprio faturamento, os dez a quinze procedimentos que mais pesam na receita do consultório, com o código TUSS de cada um. Esses códigos já estão nas guias enviadas à operadora todo mês. Se a lista não existe pronta, esse é o primeiro trabalho, e ele vale por si.

O caminho até a ferramenta: site da ANS, em gov.br/ans, seção Acesso à Informação, depois Perfil do Setor, depois Dados e Indicadores do Setor, e ali o item D-TISS, Painel dos Dados do TISS. O painel abre direto no navegador, sem cadastro e sem custo. Quem prefere trabalhar em planilha pode baixar a base no Portal Brasileiro de Dados Abertos.

Dentro do painel, a sequência de filtros que faz diferença:

  • Segmentação. Escolha ambulatorial quando o procedimento acontece no consultório, na clínica ou no laboratório. Hospitalar é para o que acontece em ambiente hospitalar. Misturar os dois é o erro mais comum e o que mais distorce a média.
  • Unidade da federação. Média nacional não negocia nada. Filtre o seu estado, porque o mesmo código pode ter comportamento muito diferente entre uma UF e outra.
  • Faixa etária e sexo. Use quando a especialidade tem perfil concentrado. Ginecologia, pediatria e geriatria mudam de figura quando esses filtros entram.
  • Porte da operadora. Comparar o que você recebe de uma operadora grande com uma média que inclui operadoras pequenas produz conclusão frágil. Filtre pelo porte da operadora com quem a conversa vai acontecer.
  • Período de competência. Puxe 2025, que é o dado mais recente, e depois puxe 2023 e 2024. O valor de um ano é uma foto. Três anos são uma curva, e é a curva que mostra se o contrato ficou para trás.

Com os números na tela, monte uma planilha de quatro colunas: código e nome do procedimento, valor médio do D-TISS no recorte aplicado, valor que a operadora paga hoje ao consultório, e a diferença em reais e em percentual. Depois multiplique a diferença pelo volume mensal daquele procedimento. Se um código tem diferença de 18 reais e o consultório realiza 120 por mês, o assunto vale 2.160 reais por mês, ou 25.920 reais por ano. Deixa de ser sensação e passa a ser um número que cabe numa pauta.

Na conversa com a operadora, três cuidados mudam a qualidade da reunião:

  • Leve o recorte por escrito. Registre a data da consulta ao painel, os filtros aplicados e a fonte. Um pedido com origem pública declarada é verificável, e o que é verificável é mais difícil de descartar sem resposta.
  • Priorize poucos códigos. Pedir revisão em sessenta procedimentos dilui a conversa. Escolha os cinco que mais pesam na receita e onde a distância para a referência é maior.
  • Leia o número inteiro, não apenas a tabela. Valor de honorário não é valor recebido. Entre um e outro estão a glosa, o prazo de pagamento, os tributos e o custo de operar o atendimento. Um valor alto pago em noventa dias, com glosa recorrente, pode valer menos em caixa que um valor menor pago em trinta.

Uma advertência honesta, porque ela evita frustração: o D-TISS é referência, não é obrigação. O painel não vincula operadora alguma, não cria direito a reajuste e não garante que a conversa termine bem. O que ele faz é tirar o consultório da posição de discutir valor sem parâmetro. O número abre a conversa. Ele não a encerra.

Quem tinha a planilha inteira e quem tinha só a proposta

Até 3 de julho de 2026, a negociação de tabela entre consultório e operadora acontecia com os dois lados olhando telas diferentes. A operadora enxergava a rede inteira: quanto pagava a cada prestador credenciado, a dispersão entre eles, o peso de cada um no volume e onde havia folga. O consultório enxergava um contrato, o dele.

Isso não é acusação, é desenho de sistema. A operadora precisa dessa visão para administrar uma rede. O problema nunca foi ela ter o dado. Era só ela ter.

E o médico não tinha caminho simples para corrigir isso por conta própria. Contratos costumam trazer cláusula de confidencialidade sobre valores. Além disso, prestadores concorrentes combinarem ou trocarem tabelas entre si é terreno delicado do ponto de vista concorrencial, e com razão. O resultado era um consultório sem fonte legítima de comparação. Não por descuido de quem gere a clínica, mas por ausência de estrutura pública que oferecesse a informação.

É exatamente esse vazio que a base pública preenche. O D-TISS entrega um agregado estatístico oficial, produzido pelo regulador a partir de informação que as operadoras já eram obrigadas a enviar. Não é a tabela do colega da esquina, e é melhor do que isso: é a média do mercado, com recorte declarado, sem que ninguém precise combinar preço com ninguém.

A assimetria não acabou. A operadora continua com mais informação, mais dado individualizado e mais capacidade de análise. Mas a distância diminuiu, e diminuiu sem custo para o consultório.

Dois bilhões de procedimentos e uma conta que aperta no meio da cadeia

O D-TISS não chegou sozinho. Três dias antes, em 30 de junho de 2026, a ANS divulgou o Mapa Assistencial da Saúde Suplementar com os números de 2025, e eles dão a moldura da conversa.

A saúde suplementar registrou 2 bilhões de procedimentos em 2025, alta de 3,7% sobre 2024, cerca de 5,5 milhões de atendimentos por dia. Dentro desse total, 1,23 bilhão foram exames ambulatoriais, alta de 3,9%, respondendo por mais de 60% de toda a produção assistencial do setor. As consultas médicas somaram 288,7 milhões, alta de 1,5%, com média de 5,5 consultas por beneficiário no ano. As internações foram 9,9 milhões, alta de 8,9%.

Vale parar nesses três percentuais lado a lado. Consulta cresceu 1,5%, exame cresceu 3,9% e internação cresceu 8,9%. A linha que mais cresce é a mais cara, e a que menos cresce é a do consultório. As internações representam 0,49% do volume de procedimentos e 41,9% da despesa assistencial do setor. Menos de meio por cento do que se faz consome mais de quarenta por cento do que se gasta.

As despesas assistenciais subiram 11% em valor nominal e 6,6% descontada a inflação. Em linguagem de gestão: o custo assistencial cresceu bem acima da inflação, e essa pressão não desaparece, é distribuída ao longo da cadeia. Parte dela chega à mesa do prestador como reajuste apertado, glosa mais rigorosa ou prazo mais longo.

Do lado do prestador, o 10º Observatório de Balanços da Anahp, divulgado em 13 de julho de 2026 com dados do primeiro trimestre de 2026, mostra onde o aperto aparece. O prazo médio de recebimento dos hospitais foi de 73,84 dias, contra prazo médio de pagamento a fornecedores de 48,38 dias. São aproximadamente 25 dias de diferença que o prestador financia com o próprio caixa, mês após mês.

No mesmo levantamento, o índice de glosa aceita ficou em 1,61% da receita bruta de convênios, e a margem EBITDA hospitalar em 9,45%, com a despesa total consumindo cerca de 94% da receita líquida. São números de hospitais associados à Anahp, não de consultórios, e isso precisa ficar claro. Mas a mecânica que eles descrevem, receber depois de pagar e perder uma fatia da receita em glosa, é a mesma que qualquer consultório credenciado reconhece na própria rotina.

A Consulta Pública 170 e a glosa que talvez deixe de ser livre

Enquanto o painel era atualizado, a ANS conduzia outra discussão, com muito menos barulho. A Consulta Pública nº 170/2026 tratou de uma minuta de resolução normativa sobre a celebração de contratos entre operadoras de planos de saúde e prestadores de serviços de saúde, incluindo conteúdo mínimo dos contratos, formas de remuneração, critérios de reajuste e mecanismos de transparência e solução de conflitos. O prazo de contribuições foi prorrogado até 3 de julho de 2026, a mesma data em que a base do D-TISS foi disponibilizada.

É preciso dizer com todas as letras: trata-se de minuta em consulta pública, não de norma vigente. Nada do que está descrito abaixo produz efeito hoje. O texto ainda pode ser alterado, pode ser aprovado com outra redação ou pode não ser aprovado.

  • Glosa. A proposta veda glosar procedimento previamente autorizado e efetivamente realizado, salvo divergência técnica de auditoria devidamente documentada.
  • Transparência da glosa. A proposta garante ao prestador acesso às informações e aos documentos da auditoria que fundamentaram a glosa. Hoje é comum o prestador receber a negativa sem receber o raciocínio por trás dela.
  • Índice de reajuste. A proposta estabelece o IPCA como índice padrão quando a livre negociação não resolve, inclusive nos casos em que a cláusula de reajuste é inexistente ou inadequada.
  • Fator de Qualidade. A proposta mantém quatro faixas, pagando 100%, 105%, 110% ou 115% do IPCA, com critérios que incluem acreditação, núcleo de segurança do paciente e percentual mínimo de conformidade ao padrão TISS.
  • Janela de negociação. A discussão de reajuste passaria a ocorrer em até 90 dias antes da data de aniversário do contrato, deixando de ficar atrelada ao calendário civil.

Repetindo, porque é a parte que mais gera confusão em conversa de corredor: isso é proposta, não é regra. Quem chegar a uma renegociação afirmando que a operadora está obrigada a aplicar IPCA estará errado hoje. O que faz sentido é acompanhar o processo e organizar a casa para o cenário em que ele avance.

O que muda na sua mesa de negociação a partir de agora

Durante muito tempo, o médico que aceitou uma tabela ruim foi tratado como alguém que negociou mal. A leitura é injusta e, pior, é imprecisa. Não existe negociação boa sem informação. Quem senta à mesa sabendo apenas o próprio número não está negociando, está respondendo a uma proposta. A falha não era de caráter nem de preparo do profissional. Era de estrutura, e a estrutura mudou um pouco em 3 de julho.

  • Mapa de códigos. Ter, por escrito, os procedimentos que mais faturam, com código TUSS, volume mensal e valor pago por operadora. Sem isso, o painel público não serve para nada, porque não há com o que comparar.
  • Painel de distância. Uma vez por ano, comparar cada código com a referência do D-TISS no recorte correto e registrar a distância em reais e em percentual. Uma planilha de dez linhas resolve.
  • Controle de glosa. Registrar o que foi glosado, por qual motivo e quanto foi recuperado. Se a minuta da CP 170 vier a virar norma, quem já tem esse histórico organizado chega à discussão com documento, e não com memória.
  • Calendário de aniversário de contrato. Saber a data de cada contrato e preparar a conversa com antecedência, em vez de descobrir o reajuste depois de aplicado.
  • Leitura de caixa, não apenas de tabela. Valor de honorário, prazo de recebimento e percentual de glosa formam um número só. Negociar apenas o primeiro deixa dois terços do problema de fora.

Nada disso garante reajuste, e convém repetir: o painel é referência pública, não é norma, e a operadora permanece livre para negociar. O que a informação faz é mudar a natureza da conversa. Um consultório que chega com recorte, fonte e volume não está pedindo. Está apresentando um caso, e conduzindo a discussão para o terreno do dado verificável.

Vale também o inverso, e a honestidade aqui protege o médico. É possível que o consultório descubra estar acima da média do estado em vários códigos. Saber disso antes que a operadora diga é vantagem, não derrota. Quem conhece o próprio posicionamento escolhe onde insistir e onde preservar a relação, com critério em vez de intuição.

Quando o preço vira informação pública, a conversa muda de eixo

A direção regulatória fica visível quando se olham os movimentos juntos, dentro de quinze dias. Em 30 de junho, o Mapa Assistencial com a produção e a despesa do setor. Em 3 de julho, a base do D-TISS aberta ao público e o encerramento das contribuições da Consulta Pública 170. Em 13 de julho, o retrato financeiro dos prestadores pela Anahp. Produção, preço, contrato e caixa, publicados em sequência.

A tendência é de mais transparência, não de menos. A base do D-TISS vem sendo atualizada periodicamente e cobre agora onze anos de série. Cada atualização torna a comparação histórica mais robusta, e é ela que permite enxergar defasagem acumulada, não apenas o valor de um ano.

Se a minuta da CP 170 avançar, e não há garantia de que avance, o desenho passaria a ser outro: piso de reajuste indexado, regra clara sobre glosa de procedimento autorizado e acesso do prestador à documentação da auditoria. Nesse cenário, a referência pública de preço deixaria de ser apenas argumento e passaria a conversar com um mecanismo de reajuste definido em norma. Por enquanto, é cenário. Cenário se acompanha, não se anuncia.

O que já é fato, hoje, independe de qualquer aprovação futura: o valor médio de honorário praticado por procedimento, por estado, por faixa etária e por porte de operadora está publicado, é gratuito e é oficial. Não estava disponível assim há dois meses. Está agora.

Na DAMA, a leitura permanece a mesma. O que era negociação no escuro passou a ser negociação com referência. Quem abre a planilha antes da reunião chega com pergunta. Quem não abre chega com pedido.

Referências

Fonte: Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), "ANS disponibiliza base de dados do painel D-TISS", publicada em 3 de julho de 2026, disponível em gov.br/ans. Complementam esta reportagem a página oficial "D-TISS, Painel dos Dados do TISS", da ANS; a notícia "Planos de saúde registram 2 bilhões de procedimentos em 2025", da ANS, de 30 de junho de 2026; o 10º Observatório de Balanços da Anahp, divulgado em 13 de julho de 2026 com dados do primeiro trimestre de 2026; e a Consulta Pública nº 170/2026 da ANS, cujo texto permanece na condição de minuta, sem vigência.

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