
Em resumo
- A glosa da Geap passou de 5,8% no primeiro semestre de 2025 para mais de 14% no segundo, e a rede hospitalar respondeu rompendo contrato.
- Pela Anahp, a glosa inicial gerencial foi de 15,89% em 2024 e a glosa aceita, 1,61% no primeiro trimestre de 2026: indicadores e períodos distintos.
- No consultório, a perda não é maior em percentual, é maior em invisibilidade: sem registro do faturado, do motivo e da data, não há recurso.
- A Consulta Pública ANS nº 170/2026 traz minuta que veda glosar procedimento autorizado e efetivamente realizado, texto ainda não aprovado e sem vigência.
O que aconteceu com a Geap, na ordem em que aconteceu
A Geap Saúde, autogestão que atende servidores públicos federais, viu seu índice de glosa passar de 5,8% no primeiro semestre de 2025 para mais de 14% no segundo semestre. Glosa é a recusa da operadora em pagar aquilo que já foi atendido e faturado pelo prestador. Traduzido para caixa: de cada R$ 100 enviados para pagamento, a parcela recusada de entrada saiu de perto de R$ 6 para perto de R$ 14.
A resposta da rede veio em bloco. A Rede D'Or aponta mais de R$ 200 milhões em aberto desde janeiro de 2025 e suspendeu o atendimento da operadora em 28 unidades, com outras seis descredenciadas. No complexo do Hospital das Clínicas da FMUSP, os atendimentos mantidos pela Fundação Faculdade de Medicina foram suspensos em junho de 2026, e a Fundação Zerbini rescindiu o contrato por justa causa. Beneficência Portuguesa, São Camilo e unidades do Fleury também restringiram ou suspenderam atendimento.
A operadora tem cerca de 420 mil beneficiários e informou ter encerrado o primeiro trimestre com lucro líquido de R$ 47 milhões. Os dois fatos convivem: a operadora reporta resultado positivo enquanto a rede que a atende registra recusa de pagamento acima do dobro da média do setor. Esses números vêm de levantamento do jornal Valor Econômico reproduzido pela imprensa, portanto fonte secundária, não dado publicado pelo regulador.
Por que 14% é um número diferente de 6,5%
A média setorial de glosa fica em torno de 6,5%. O prestador monta a operação inteira em cima dessa referência: contrata faturista, mantém auditoria interna, calcula quanto capital de giro precisa deixar parado enquanto recorre. Quando o índice de um único convênio dobra e chega a 14%, não é o valor absoluto que rompe o contrato, é o fato de que a premissa sobre a qual aquele contrato foi assinado deixou de valer.
Por isso a reação foi rescisão e não negociação de tabela. Reajuste se discute, previsibilidade não. Um prestador opera com margem apertada e prazo longo desde que saiba qual é a margem e qual é o prazo. O que ele não consegue é operar com uma taxa de recusa que muda de patamar no meio do exercício, porque nenhuma conta de caixa sobrevive a isso.
A máquina que o hospital mantém para não perder o dinheiro
Os dados da Anahp explicam por que o hospital enxerga a glosa antes de ela virar prejuízo. Na 10ª edição do Balanço Observatório, com dados do primeiro trimestre de 2026, o índice médio de glosa aceita ficou em 1,61% da receita bruta de convênios. Glosa aceita é o que sobrou como perda definitiva depois do recurso. Já a glosa inicial gerencial, medida na edição anterior do Observatório, foi de 15,89% em 2024, contra 11,89% em 2023.
São indicadores diferentes e períodos diferentes, então a comparação serve como ordem de grandeza e não como taxa exata de recuperação. Ainda assim, ela diz o essencial: o hospital tem perto de um sexto do faturamento recusado de entrada e derruba a maior parte dessa recusa antes que ela vire baixa contábil. Isso não é sorte. É departamento jurídico, faturista dedicado e auditoria própria trabalhando dentro do prazo de recurso.
O custo de sustentar essa máquina aparece no resto do balanço. O prazo médio de recebimento das contas hospitalares ficou em 73,84 dias, contra 48,38 dias de prazo médio de pagamento a fornecedores: são cerca de 25 dias de operação que o hospital financia do próprio bolso todo mês. A margem EBITDA ficou em 9,45% e a despesa total consumiu cerca de 94% da receita líquida, o que deixa pouca folga para absorver surpresa.
No plano regulatório, a ANS colocou em Consulta Pública 170/2026, com contribuições encerradas em 3 de julho de 2026, uma minuta de resolução que veda glosar procedimento previamente autorizado e efetivamente realizado, salvo divergência técnica documentada, e assegura ao prestador acesso aos documentos da auditoria que fundamentou a glosa. É minuta, não é norma vigente.
A diferença não é o tamanho da perda, é a visibilidade dela
Se o hospital, que tem jurídico, faturista e auditoria própria, chega ao ponto de rescindir contrato por causa de glosa, vale olhar para o outro extremo da mesma cadeia. O consultório que preenche a guia entre um paciente e outro está exposto ao mesmo mecanismo, com uma diferença decisiva: não há ninguém contando.
A perda do consultório não é necessariamente maior em percentual. Ela é maior em invisibilidade. O demonstrativo chega, o valor vem menor do que o esperado, e a diferença entra na conta mental de que aquele mês veio fraco. Sem registro do que foi faturado, sem o código do motivo da recusa e sem a data de envio, não existe recurso possível, porque não existe nem a informação de que havia algo a recorrer.
Isso não é desatenção do médico. É ausência de estrutura. Ninguém audita o próprio faturamento no intervalo entre duas consultas, com o paciente seguinte já na sala de espera. O hospital resolveu o problema criando uma função e pagando por ela. O consultório, na maioria dos casos, não criou a função nem definiu de quem é a tarefa.
O que o consultório precisa registrar para enxergar a própria glosa
Nada do que segue recupera valor por si. O que esses registros fazem é transformar uma perda invisível em um número que pode ser conferido e contestado dentro do prazo. São seis itens, e nenhum deles exige sistema novo nem software caro.
1. Faturado contra recebido, por convênio e por mês. Duas colunas e uma data, em planilha simples. Sem essa comparação, não há como saber se o mês veio fraco por causa da agenda ou por causa de recusa de pagamento, e esses dois problemas pedem decisões opostas.
2. O motivo da glosa em código, não em memória. O demonstrativo traz o motivo da recusa. Anotar esse código ao lado da guia é o que permite descobrir, três meses depois, que boa parte das recusas vem sempre do mesmo campo mal preenchido ou do mesmo procedimento.
3. Quatro datas por guia. Atendimento, envio, retorno do demonstrativo e limite de recurso. Prazo de recurso é contado, e prazo perdido deixa de ser discussão de mérito e vira perda automática, independentemente de quem tinha razão.
4. Número e data da autorização prévia. Quando o procedimento foi autorizado antes e realizado depois, o registro dessa autorização é a peça central de qualquer contestação. É exatamente o ponto que a minuta da ANS pretende endurecer, o que torna esse registro mais útil daqui para frente, não menos.
5. Dois índices, não um. O percentual do faturado que voltou recusado e o percentual que virou perda definitiva depois do recurso. O primeiro mede a qualidade do preenchimento e do envio. O segundo mede a capacidade de resposta do consultório, que é coisa distinta.
6. Nome e frequência. Quem confere e em que dia da semana confere. Tarefa sem dono e sem data marcada não acontece em consultório cheio, e essa é a razão pela qual a maior parte das glosas nunca é contestada.
Com esses seis registros, o consultório passa a ter, na escala dele, a mesma informação que levou os hospitais a agir: quanto um convênio específico recusa, por qual motivo e a que custo. O que fazer com esse número depois é decisão de cada médico, e ela muda conforme o peso daquele convênio no faturamento e na agenda.
O hospital rompeu contrato porque tinha o número na mão. O consultório não rompe nem negocia, porque o número não existe em lugar nenhum. Na DAMA, esse costuma ser o primeiro dado que se pede a um consultório: o que foi faturado e o que foi recebido, mês a mês, por convênio. A glosa não começa a doer quando ela cresce, começa a doer quando ninguém está contando.
Referências
Fonte: Anahp, Balanço Observatório Anahp, 10ª edição, com dados do primeiro trimestre de 2026, de onde vêm os indicadores de prazo médio de recebimento, prazo médio de pagamento a fornecedores, glosa aceita, margem EBITDA e despesa total sobre receita líquida. O índice de glosa inicial gerencial de 11,89% em 2023 para 15,89% em 2024 é da edição anterior do Observatório e refere-se a período distinto. Os números da crise da Geap vêm de levantamento do jornal Valor Econômico publicado em 24 de julho de 2026 e reproduzido pela imprensa, portanto fontes secundárias, não dados publicados pela ANS. A Consulta Pública ANS nº 170/2026, com contribuições encerradas em 3 de julho de 2026, é minuta de resolução normativa e não norma vigente.
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